|
CAPÍTULO
7
O SUBMUNDO DIGITAL
O submundo formado pelos hackers
é, muitas vezes, condenado em todo o mundo. As inúmeras
invasões promovidas em sites do governo e grandes instituições
são vistas simplesmente como badernas digitais, busca
de aventura e divertimento, em virtude dos prejuízos
causados. Mas não procuram levantar suas verdadeiras
origens. Certamente, uma porcentagem de hackers realiza tais
invasões com o intuito da possibilidade de fama e realmente
causam prejuízos à sociedade.
Para os autores do site digilalpeople.com.br,
precisamos entender o contexto que levou a este tipo de ação
e realizar uma verdadeira discussão sobre o assunto.
Vale a pena, neste momento, transcrever um manifesto hacker
anônimo que circula amplamente pela Internet.
“Todas as noites eu conecto
com o intuito de poder desabafar o máximo, até
me cansar para, então, o sono chegar e me levar para
a cama. Tento imaginar o futuro todo santo dia e o único
futuro que desejo observar é a solução
para uma dor que me consome sem pressa para acabar. A solidão
realmente gostou da minha pessoa. Gostou tanto que resolveu
me visitar todas as noites. E sempre muito mal educada, pois
chega, sem avisar, sem pressa para terminas suas pressões
psicológicas. Mas a solidão não contava
de encontrar um cara tão maluco como ela. Pois sou
um hacker e a rede me trouxe felicidade. Felicidade de saber
que não conseguira me fazer chorar de desgosto e cair
em suas tentações e felicidades. A rede, com
suas fantasias e mistério, que numa conectada me traz
tesão, me faz ter desejo, me faz forte e quente, me
faz chorar e rir, me faz ter vontade de correr, vontade de
gritar, de amar, vontade de viver e esquecer tudo. É
uma força que dificilmente conseguiríamos sozinhos,
é um amigo para todos os problemas, é uma janela
para o mundo quente, lento e misterioso. Todos têm o
seu porquê, eu tenho o meu, e, com certeza, você
deve ter o seu. Muitos acham isso uma loucura. Loucura é
a minha vida Hacker!”
Pode-se perceber através
desse manifesto, que o mundo hacker é uma forma de
agir e de pensar. Não é um mundo tão
irresponsável e inconseqüente quanto parece. É
a possibilidade de expressar um sentimento, um desejo, até
uma fúria contra as pressões do mundo atual.
O governo e as grandes instituições, por mais
que aumentem as restrições e a segurança
em suas redes, não conseguirão deter a denominada
tirania das comunidades hackers.
Na virada do século
XX, o limite entre animais e seres humanos está se
tornando indefinido e problemático. O mesmo acontece
entre os seres humanos e as máquinas. O físico
Stefhen Hawking é um exemplo radical de cyborg em carne
e osso. Ele usa uma prótese tecnológica, não
pode falar como o comum dos mortais, mas faz conferências
com voz gerada por computador. Com a prótese tecnológica,
ele estende sua vontade através dos limites da carne
e da máquina. É neste ponto que o mito "Hawking",
faz interface com o mito "Senna". Em outras pessoas,
a prótese tecnológica pode ser uma calculadora
HP, uma televisão, um vídeo, um computador,
um aspirador de pó, um carro novo, um cigarro, um micro-ondas,
um vibrador, uma motorcicleta e tantos outros objetos de desejo
ou consumo. As mensagens eletrônicas que circulam na
Internet sob a forma de “correntes” são todas falsas
O E-mail sobre o menino que tem pouco tempo de vida também
é falso. Essa história é comprovadamente
tão velha que se o menino existisse e vivesse , ele
provavelmente seria um senhor de idade. Assim é o submundo
digital e precisamos conhece-lo.
São muitas as tribos
que atuam no chamado submundo digital. Eles e Elas são
chamados de Hackers, Crackers, Cyber-Punks, Lammers, Phreackers,
Zoombies, Geeks, Mailbombers, Nerds e outras tribos e que
invadem o www. Para uma etnografia do mundo virtual é
necessário conhecer e frequentar estas tribos, seus
códigos, idéias e metas.
O fato é que está
havendo uma forte convergência entre o mundo físico
e virtual. Esta tendência também acontece no
plano das transgressões tecnológicas. O terrorismo
digital já é uma realidade. Basta pesquisar
o que tem sido feito e desfeito através do programa
AOHELL. Este programa foi construido por um Hacker chamado
DaChronic, ele avisa entretanto que aquilo é uma piada
"joke", mas que o uso do programa poderá
levar alguém para a cadeia - "You would go to
jail for this..." . Isto vem acontecendo porque o mundo
virtual é simbólico, binário, verdadeiro
e falso. É uma representação metamórfica
de informações . O mundo digital é mutante
e aparentemente caótico. Tangente e eixo são
conceitos geométricos relativos no cyber espaço.
Lugar onde programas de computadores funcionam e dados transitam.
Neste espaço de amplitude estreita seres humanos constróem
novos significados para suas vidas cognitivas, afetivas e
profissionais. Embora tenha base, corpo e vértice;
a Internet com suas variadas comunidades virtuais não
possuem estrutura piramidal. É por isso que muitas
vezes, internautas novatos acham estranho e caótico
bater-papo em salas virtuais. Com o recurso das salas de videoconferência
este "caos na comunicação virtual"
diminui em demasia.
No Brasil, não existe ainda legislação
específica sobre crimes virtuais. De forma genérica
a Constituição Federal de 1998 diz no capitulo
I, artigo 5º, parágrafo XII que " é
inviolável o sigilo da correspondência e das
comunicações telegráficas, de dados e
das comunicações telefônicas, salvo, no
caso último, por ordem judicial (...)". Nos U.S.A,o
joven Kevin Mitnik foi capturado em 1995 pelo FBI em Los Angels
e está há dois anos cumprindo pena em San Diego
– California, por roubar senhas de usuários de cartões
de crédito e fraudar sistemas eletrônicos. Mark
Abene já cumpriu um ano e meio de cadeia por invadir
sistemas de telefonia. Hoje é consultor de segurança
em redes e viaja pelo mundo dando palestras. Robert Moris
há dez anos, infectou a internet com um vírus
denominado "worm" (Tradução: Lumbriga,verme,saca-rolha,
parafuso), que paralisava sistemas, causando prejuízos
de milhões de dólares para empresas e usuários
domésticos.
Não é muito difícil entrar no sistema
operacional de um servidor, se o internauta apenas o examina,
é geralmente classificado como hacker. Se copia informações,
utilizando-as para fins ilícitos, ou destrói
ou altera arquivos, é chamado de cracker ou pirata.
O invasor habilidoso não deixa rastros. Para atingir
seus objetivos, escolhe ou cria programas especiais que camuflam
seu endereço de origem. O arquivos enviados pelos piratas
cibernéticos invasores são chamados de "syn
flood", que sujam os discos rígidos e torna mais
lento o desempenho dos sistemas. O alvo preferido destes cyborgs
trangressores são os servidores que utilizam o sistema
Windows NT e Linux. A cyber caçada só está
começando. Digo sito porque dentro de 10 anos deverá
circular pelo mundo eletrônico mais de 1 trilhão
de dólares !!! .
Os Hackers e Crackers americanos, canadenses, israelenses,
alemães e japonezes, formam comunidades com alto nível
de organização virtual. No último dia
13 de setembro de 1998, a Home page do jornal New York Times
foi invadida por piratas que inseriram imagens de mulheres
nuas e insultos. Os invasores que se identificaram com as
siglas HGF- HACKING FOR GIRLIES, pediam a libertação
de do gênio transgressor Kevin Mitnick.
O Times teve que desconectar
seu site durante nove horas, em momentos em que a afluência
era particularmente forte devido à divulgação
na Internet do relatório Starr sobre o escândalo
sexual envolvendo o Presidente Bill Clinton com a ex-estagiária
da Casa Branca, Monica Lewinsky. Este ataque contra o New
York Times deixa claro a fragilidade da segurança da
rede mundial de computadores em um momento histórico
em que governos, corporações, empresas e indivíduos
dependem cada vez mais dela . A falta de segurança
do mundo físico migra cada vez mais para o plano virtual.
Os hackers e crackers são
as representações simbólicas de todos
aqueles que estão fartos da submissão diante
do poder, seja ele político, econômico ou cultural,
que está instaurado no mundo até o momento.
E a Internet possibilitou a expressão global deste
sentimento através das invasões hackers e gerou
um maior equilíbrio de poder. E este equilíbrio
tem que existir! Se as ações dos hackers são
veementemente condenadas, as ações ditatoriais
do poder governamental e empresarial devem ser condenadas
da mesma forma.
O bem e o mal, neste caso,
se confundem em diferentes ações, realizadas
por diferentes autores. Mas o bem e o mal (mais uma vez) se
tornam relativos, se completam e demonstram como são
essenciais para a existência humana. Seja no chamado
mundo real, seja na internet.
|