A CARREIRA E OS FILMES DE JOHN CARPENTER

Por Helder Maia

Diretor, roteirista, compositor, produtor, editor e ator nas horas vagas, John Howard Carpenter nasceu em 16 de janeiro de 1948 na cidade de Carthage, Nova Iorque, mas foi criado em Browling Green, Kentucky, onde seu pai trabalhava John Carpentercomo professor de música em uma Universidade. O que talvez tenha influenciado o filho, já que Carpenter foi músico e, na adolescência, tocou em uma banda de rock. Apesar de ter se dedicado ao cinema, sua ligação com a música não se perdeu visto que Carpenter é o compositor das trilhas sonoras de boa parte de seus filmes.

Matriculou-se ainda jovem na Escola de Cinema da Universidade de Southern California, em Los Angeles, onde realizou, em 1970, o curta intitulado "The Ressurection of Broncho Billy". Trabalho este que levou o Oscar de Melhor Curta-Metragem.

Como a Universidade alegou ter direitos sobre seu curta, Carpenter irritou-se e resolveu usar seu próprio dinheiro para financiar seu próximo projeto, seu primeiro longa-metragem intitulado "Dark Star", de 1974. Ao custo de parcos 60 mil dólares, "Dark Star" só ficou pronto quatro anos depois devido às dificuldades provocadas pelo baixo orçamento. Realizado juntamente com o colega Dan O'Bannon, "Dark Star" mistura comédia e ficção científica para contar a história da tripulação de uma nave espacial em missão no espaço profundo.

O filme, contudo, não teve críticas muito positivas e como Carpenter não conseguisse arranjar trabalho começou a escreverAssalto ao 13o. DP roteiros para filmes. Ele escreveu o roteiro para "Os Olhos de Laura Mars", o que lhe trouxe certa liberdade financeira. Então, um investidor na Filadelfia mostrou interesse em financiar um filme escrito e dirigido por Carpenter. O qual acabou sendo seu segundo longa: "Assalto ao 13o. DP" (1976). Inspirado em "Onde Começa o Inferno", com John Wayne, o filme mostra a luta de policiais e detentos para sobreviverem a uma gangue de punks assassinos que sitiou a delegacia onde eles se encontram.

Mais uma vez as críticas não foram positivas e Carpenter se perguntava porque as pessoas não apreciavam seu trabalho. Então, ele levou "Assalto ao 13o. DP" para a Inglaterra, onde foi exibido no British Film Institute. Lá, Carpenter ganhou certo reconhecimento, o qual chegou aos Estados Unidos antes de sua volta.

De volta aos EUA, ele realizou um filme para a TV chamado "Alguém me Vigia" (1978), onde conheceu e acabou por se casar com sua primeira esposa, a atriz Adrienne Barbeau.

Depois, foi-lhe feita a oferta de realizar um filme de terror de baixo orçamento. Dirigido, co-escrito e musicado por Carpenter este filme seria o clássico "Halloween - A Noite do Terror" (1978). Contando a história de um lunático homicida que foge de um sanatório para aterrorizar inocentes babás no Dia das Bruxas, "Halloween - A Noite do Terror" tornou-se um dos filmes independentes de maior sucesso financeiro de todos os tempos. Tendo custado apenas 300 mil dólares o filme rendeu, em sua distribuição internacional, 75 milhões. O filme também serviu para impulsionar a carreira da atriz Jamie Lee Curtis.

Uma curiosidade sobre "Halloween - A Noite do Terror" e que talvez poucas pessoas conheçam é a colaboração de "Jornada nas Estrelas" para sua realização. Explico. Os envolvidos na criação do filme estavam tendo dificuldades para encontrar a máscara ideal a ser usada pelo assassino louco Michael Myers até que um produtor foi à uma feira e comprou uma máscara do Capitão Kirk de "Jornada nas Estrelas - Série Clássica". Ele recortou-lhe mais os buracos para os olhos e pintou-a de branco, obtendo um resultado tão interessante que a máscara acabou sendo usada no filme.

HalloweenO sucesso de "Halloween - A Noite do Terror" ultrapassaria ainda as décadas de oitenta e noventa, já que geraria mais seis continuações. Destas, Carpenter produziu "Halloween 2" (também co-escrito por ele) e "Halloween 3", embora este último seja muito fraco e não se relacione com os outros filmes.

"Halloween" teve ainda o mérito de lançar e popularizar a fórmula do louco-assassino-fazendo-vítimas no mercado americano de filmes de terror. Fórmula esta seguida à exaustão, como na série "Sexta-Feira 13" e nos atuais "Pânicos" da vida que vêm pululando em nossos cinemas neste final de década. E é claro que deste "revival" do gênero horror esta fonte de inspiração não poderia ter ficado de fora, tendo sido realizado em 1998 "Halloween H20 - 20 Anos Depois", em comemoração aos vinte anos do clássico e trazendo Jamie Lee Curtis no papel que a consagrou.

Após "Halloween", Carpenter dirigiu "Elvis Não Morreu" (1979), um drama para a TV de três horas de duração no qual ele viria a trabalhar pela primeira vez com Kurt Russel (que interpretou Elvis). Este filme marcaria o início de uma parceria de amizade e trabalho que renderia ainda mais quatro filmes. E também, segundo Carpenter, foi o filme em que ele trabalhou mais duro, tendo trinta dias para realizar um filme de três horas com oitenta e oito papéis com fala, cento e cimquenta locações e que se passava entre os anos cinquenta e sessenta.

"A Bruma Assassina" (1980), seu filme seguinte, conta a história de uma cidade litorânea ameaçada por fantasmas assassinos habitantes de uma misteriosa neblina. Cheio de clima e suspense, "A Bruma Assassina" foi mais um sucesso de público e crítica que trazia em seu elenco Adrienne Barbeau, Jamie Lee Curtis e sua mãe Janet Leigh (a vítima do chuveiro de "Psicose"). Ao contrário de "Halloween", que achou divertidíssimo de fazer, Carpenter considerou "A Bruma Assassina" terrível de realizar, pois é muito difícil e trabalhoso fazer as pessoas crerem numa história de fantasmas. Pode-se ver Carpenter fazendo uma ponta no início do filme, como o operário que executa serviços para a Igreja local.

"Fuga de Nova Iorque" (1981), traz de volta a parceria Carpenter/Russel para contar a história de Snake Plissken (Russel), espécie de anti-herói que é coagido a ir à Nova Iorque, que foi transformada em uma cidade-prisão, para resgatar o presidente americano (Donald Pleasence) cujo avião caiu dentro da cidade. Mais um trabalho de qualidade de Carpenter que criou uma legião de seguidores "cult".

The ThingSeu filme seguinte, "O Enigma de Outro Mundo" (1982), um clássico moderno e refilmagem de "O Monstro do Ártico" (1951), traz encabeçando o elenco Kurt Russel no papel de um membro de uma equipe de pesquisas instalada em uma base na Antártida que têm que enfrentar uma criatura alienígena capaz de imitar a aparência de qualquer organismo vivo. Não se pode deixar de mencionar a excelente trilha sonora composta para o filme pelo mestre Ennio Morricone. Apesar de excelente, "O Enigma de Outro Mundo" foi mal recebido por crítica e público. Lançado duas semanas após "E. T. - O Extraterrestre" o filme de Carpenter, denso e pessimista, bateu de frente com a `xaroposa história do ET bonzinho que havia caído no gosto do público. Carpenter então foi muito criticado pelo excesso de nojeira e violência contidos no filme (claro que seus fãs não reclamam nada!). O mal desempenho de "O Enigma de Outro Mundo" nas bilheterias prejudicou a carreira de Carpenter, que passou de oito a nove meses sem trabalho.

Então, quando lhe foi oferecida a direção de "Christine, o Carro Assassino" (1983), baseado em um livro homônimo de Stephen King, Carpenter aceitou. Estrelado por Keith Gordon, "Christine" traz a história de um rapaz que compra e restaura um antigo carro assombrado que ameaça todos que se puserem entre ele e seu dono. Têm-se aqui um fraco trabalho de Carpenter, que a partir de então se alternaria entre bons e maus filmes.

Querendo mostrar que não sabia realizar apenas filmes de terror e ficção científica, Carpenter dirigiu "Starman, o Homem das Estrelas" (1984), estrelado por Jeff Bridges e Karen Allen. Nele, um alienígena vem à terra e toma a forma de um homem morto há algum tempo, utilizando a viúva do mesmo para levá-lo até o local de encontro com sua nave. Humano, sensível e positivo, "Starman" foi um ótimo trabalho de Carpenter que deu à Jeff Bridges uma indicação ao Oscar. Além disso, o filme gerou uma pequena indústria ao seu redor e até um seriado para a TV de curta duração.

"Os Aventureiros do Bairro Proibido" (1986) traz de volta Kurt Russel como um caminhoneiro fanfarrão que acaba se metendo com forças sobrenaturais no bairro de Chinatown. Apesar de ser mais um filme "cult" da dupla Carpenter/Russel, "Os Aventureiros do Bairro Proibido" não fez sucesso comercial e gerou problemas políticos para o estúdio. Carpenter, por sua vez, teve seus problemas com o estúdio e resolveu voltar ao mercado independente e às produções de baixo orçamento.

O Príncipe das SombrasVoltando ao gênero horror Carpenter realizou "O Príncipe das Sombras" (1987), no qual um grupo de cientistas isolados em uma Igreja e sob as ordens de um sacerdote (Donald Pleasence) tentam avaliar o mistério por trás de um estranho recipiente esverdeado que encontra-se no local. Enquanto prosseguem com os trabalhos eles são envolvidos por acontecimentos bizarros. O filme também foi escrito por Carpenter sob o pseudônimo de Martin Quatermass.

Após "O Príncipe das Sombras" Carpenter dirigiu e escreveu (sob o pseudônimo de Frank Armitage) outro filme de baixo orçamento mas muito criativo chamado "Eles Vivem" (1989). Este filme mostra como um operário desempregado descobre uma organização secreta dedicada a acabar com alienígenas que vivem entre nós disfarçados de humanos. Por meio de óculos especiais é possível ver-se os alienígenas e as mensagens subliminares que os mesmos passam à população por meio da mídia. Inesquecível a cena em que o operário, usando os óculos, vê uma mensagem secreta oculta em uma nota de dólar: "Isto é seu Deus". Apesar do tratamento um tanto rude da história, "Eles Vivem" surpreende por seu conteúdo de crítica social ao capitalismo selvagem.

Após estes dois filmes Carpenter dirigiu "Memórias de Um Homem Invisível" (1992), remake de um filme de mesmo título realizado em 1933. O filme traz Chevy Chase como um homem que se torna invisível após sofrer um acidente químico. Ainda no elenco Sam Neil e Daryl Hannah.

"Body Bags" (1993) foi um filme para a TV co-dirigido por Carpenter e no qual ele serviu como apresentador para suas três histórias curtas de terror. Em pontas no filme diretores famosos no gênero: Tobe Hooper, Wes Craven e Sam Raimi.

Á Beira da LoucuraEm "À Beira da Loucura" (1994) Sam Neil é um detetive contratado para encontrar um famoso escritor de livros de terror que causam efeitos perturbadores em quem os lê. Ao chegar à cidade onde habita o escritor, o detetive se depara com um mundo bizarro e perigoso. Com este filme Carpenter recebeu críticas muito boas, o que não acontecia há anos. Mas, apesar de excelente, o filme não foi muito bem.

O último filme do ator Christopher Reeve antes de sofrer seu lamentável acidente foi "A Cidade dos Amaldiçoados" (1995), refilmagem que Carpenter realizou do clássico "Village of the Damned" (1960). Nele, os habitantes de uma pequena cidade são vítimas de um estranho fenômeno durante o qual todos ficam desacordados. Após algum tempo as mulheres aparecem grávidas e dão à luz crianças com estranhos poderes que se tornam uma ameaça àqueles que as contrariam.

Em "Fuga de Los Angeles" (1996), Carpenter deu continuidade ao seu clássico "Fuga de Nova Iorque". Novamente Russel veste a jaqueta de Plissken para, novamente a contragosto, ir à ilha-prisão de Los Angeles para recuperar a filha rebelde do presidente americano e um importante artefato que se encontra com a mesma. Desta vez, a opção de Carpenter foi pela sátira à cidade de Los Angeles, criando um filme divertdo.

Já em "Vampiros", de 1998, Carpenter conta a história do lider (James Woods) de um grupo de caçadores de vampiros financiado pelo Vaticano. Tudo vai bem até que sua equipe é dizimada por um vampiro superpoderoso e ele, praticamente sozinho, tem que destruir o vampirão. Interessante abordagem do clássico tema dos vampiros, especialmente em mGhosts of Marseio ao lançamento de tantos filmes de terror adolescente, mas que infelizmente foi muito mal nas bilheterias americanas.

Acaba de estrear nos EUA seu filme mais recente, "Ghosts of Mars", uma mistura de terror e ficção científica que conta a história de uma policial chamada Melanie Ballard (interpretada por Natasha Henstridge) que vai à Marte na esperança de capturar um possível assassino em massa, Desolation Williams (Ice Cube). Ela e sua tripulação, que inclui Jason Statham, Joanna Cassidy e Pam Grier, logo percebem que as mortes são o trabalho de espíritos ainda ativos dos ocupantes originais do planeta vermelho. Vamos torcer para que o filme passe logo por aqui.

Grande mestre do fantástico, John Carpenter deve reservar ainda mais algumas boas surpresas para os fãs de ficção científica e terror.

 

FILMOGRAFIA

- Warrior and the Demon (1969) - curta-metragem
- The Ressurection of Broncho Billy (1970) - curta-metragem
- Dark Star (Dark Star, 1974)
- Assalto ao 13o. DP (Assault on Precinct 13, 1976)
- Alguém me Vigia (Someone's Watching Me, 1978/TV)
- Halloween, A Noite do Terror (Halloween, 1978)
- Elvis Não Morreu (Elvis, 1979/TV)
- A Bruma Assassina (The Fog, 1980)
- Fuga de Nova Iorque (Escape from New York, 1981)
- O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982)
- Christine, o Carro Assassino (Christine, 1983)
- Starman, o Homem das Estrelas (Starman, 1984)
- Os Aventureiros do Bairro Proibido (Big Trouble in Little China, 1986)
- O Príncipe das Sombras (Prince of Darkness, 1987)
- Eles Vivem (They Live, 1989)
- Memórias de um Homem Invisível (Memoirs of an Invisible Man, 1992)
- Body Bags (1993/TV)
- À Beira da Loucura (In the Mouth of Madness, 1994)
- A Cidade dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1995)
- Fuga de Los Angeles (Escape from L. A., 1996)
- Vampiros (Vampires, 1998)
- Ghosts of Mars (2001)